" ... as pessoas vivem em montanhas cercadas de uma só flor..."
SEMIOLOGIA. SEMIÓTICA. " ... o que é mesmo que eu falei?... " SICOMANCIA. SUCUPIRA.
POSTULADOS DO PROJETO, QUE SERVIRAM DE GUIAS PARA AS ATIVIDADES: A definição de postulado utilizada neste relatório é a de uma “proposição não evidente nem demonstrável, que se admite como princípio de um sistema dedutível”. No projeto Mosartes foi considerado de fundamental importância que os participantes se incluíssem ativamente no processo de decisão, refletindo e discutindo o que estava sendo feito, de modo a tomar responsabilidade e se situar dentro de uma perspectiva filosófica. As atividades desenvolvidas durante o projeto tiveram então, como princípio, um sistema de normas práticas fundamentadas em dois postulados simples: 1. Todo ser humano carrega dentro de si um Da Vinci escondido (ou reprimido). Leonardo Da Vinci é uma figura emblemática, que representa o gênio humano na plenitude da sua pluralidade e polivalência. A especialização sempre existiu em maior ou menor grau no decorrer da história das atividades humanas, atingindo, sem dúvida, grau máximo a partir do século XX. O advento das linhas de produção em série, a partir das experiências de Henry Ford, criou especializações dentro de especializações, mudando radicalmente a maneira como o Homem passou a trabalhar, viver e ver a si mesmo. Hoje, muito se fala em “holismo”, em um resgate da visão do indivíduo como algo indivisível, origem semântica da palavra indivíduo. Não é preciso ir muito longe na própria árvore genealógica para descobrir algum antecessor polivalente, capaz de erguer (por exemplo) uma casa, tocar algum instrumento, plantar, tecer, etc. É difícil imaginar que a espécie humana, depois de milhões de anos de evolução biológica, estaria predestinada a utilizar, principalmente, o dedo indicador sobre o mouse do teclado e os olhos sobre o monitor do computador. Por isso, desde o início, as atividades sugeridas foram orientadas sobre a premissa da pluralidade de formas, contextos, gêneros, técnicas, etc., prática classificada por um dos participantes, o artista plástico Raimundo Perez, como “brain storm” (tempestade cerebral). 2. Trabalhos de criação coletiva provocam insights que estimulam a criatividade individual, as reformulações estéticas e uma melhor percepção do próximo, melhorando condições para uma compreensão mais profunda do tecido social. Postulado baseado em experiência com projetos semelhantes realizados anteriormente no Brasil e no exterior. Interessante observar que a música e o teatro, entre todas as artes contemporâneas, são as que se utilizaram primeiro e de modo mais abrangente, no século XX, da criatividade coletiva como técnica de trabalho. No projeto Genklang, envolvendo cerca de 500 pessoas na cidade de Vara na Suécia durante dois anos, com 9 outros artistas de várias especialidades em diversas formas de arte, pudemos constatar e vivenciar este postulado. FORMAÇÃO DOS GRUPOS DE TRABALHO (público): O diferencial do projeto Mosartes foi o de buscar a maior heterogeneidade possível na composição dos grupos de trabalho, envolvendo os alunos da Oficina de Artes (jovens de 10 a 17 anos, na sua maioria oriundos de famílias em situação de precariedade econômica), alunos especiais, jovens de escolas particulares, usuários do CAPS (Centro Municipal de Assistência Psicossocial), adultos voluntários profissionais de diversos ramos de atividade, professores e artistas profissionais. Um dos objetivos era comparar e discutir contrastes buscando novas perspectivas e formulações estéticas. Outro era a busca de inserção social. Obs. Para garantir o acesso democrático e a heterogeneidade dos participantes, fui obrigado a subvencionar algumas passagens urbanas ida-e-volta, a média de 100 por semana (250 reais/semana), uma vez que a renovação do acordo que garantia os vales-transporte para esse público tardou até meados de junho. Entre os profissionais de arte e mídia que participaram ativamente destes grupos podemos citar entre o pessoal da própria escola, a diretora do Ponto de Cultura, Rose Mary de Aguiar Borges, o professor de teatro Gero Band (também presidente da Associação de Artistas de Nova Friburgo), Vanessa Tozetto, professora de dança e Diego Sayheb, professor de mídias digitais. Entre outros profissionais, Erlinto Pinheiro, locutor de rádio, a professora de história Erika Marquet, a poetisa Joana Dar’c da Veiga e o artista plástico Raimundo Peres, este último com uma participação de inestimável valor criativo, propondo o Painel Mosartes e a utilização de suas máscaras performáticas.
DESCRIÇÃO RESUMIDA DAS ATIVIDADES: As atividades foram organizadas em sessões de 1 a 2 horas semanais, envolvendo aproximadamente 120 pessoas, entre participantes formais e casuais. Os grupos fizeram composições coletivas que envolviam teatro, pintura, música, fotografia, vídeo, pequenos textos e poesias. O objetivo final era compor um livro/cd de arte com o material coletado aleatoriamente, mas, sem que os participantes se inteirassem completamente disso, a consequência mais importante foi o próprio processo criativo que surgia embutido nas atividades, não o resultado. Como exemplo prático de uma típica sessão do Mosartes: começamos a sessão das 18.00 hs do dia 14/04/09 conversando sobre o problema ambiental. Decidimos passar para o papel nossas impressões mais profundas sobre esta questão, frequentemente usando de metáforas, analogias, livre associação, etc. Passamos para a declamação e gravação do texto, onde os textos foram desmembrados e lidos aleatoriamente, de forma teatral, formando construções caleidoscópicas de poesia concreta. Ouvindo o resultado começamos a desenhar e a pintar. No final, anotei propostas de diagramação para algumas páginas do livro, utilizando o material produzido. Este material sonoro vai ser utilizado porteriormente no áudio-cd, que é a documentação sonora do projeto. PRODUTOS GERADOS Durante três meses, cerca de 100 pessoas construíram essa experiência artística inusitada na Oficina Escola de Artes de Nova Friburgo. O projeto Mosartes Mosaico de Artes e Gente, proporcionou aos participantes, vindos de diversas esferas culturais e socioeconômicas, a possibilidade de trabalhar diversas mídias e criar obras coletivas que desafiaram as fronteiras entre a forma e o conteúdo. O processo gerou discussões sobre ecologia, sistemas políticos e uma busca de definições mais abrangentes de arte, cultura, história, regras de convivência, etc. A culminância desse trabalho coletivo ficou marcada, emblematicamente, em duas obras principais: 1. MMM Mural Musical Mosartes, uma peça musical para orquestra de cordas, cinco solistas e operador de som eletroacústico, cuja parte central (Solos Temáticos) é uma coletânea de temas criados in loco por 58 pessoas, na sua massiva maioria sem educação musical acadêmica. Os temas assoviados, cantarolados ou tocados foram escritos em notação musical tradicional e posteriormente distribuídos para os cinco solistas da orquestra (2 violinos, viola, violoncelo e baixo). A estrutura da peça é uma construção eletroacústica, feita de células rítmicas, gravações ambientais, poesia de sons concretos, entrevistas, etc., produzidos pelos participantes, que sugeriram diversas técnicas de montagem. A peça em si reflete o método mosartes, e também é uma experiência que explora as fronteiras entre a música instrumental e eletroacústica e os limites de definições de autoria. A obra foi enviada para a XVIII Bienal de Música Contemporânea. Para se ajustar ao regulamento da Bienal, a peça foi enviada como de autoria do coordenador do projeto, Gui Mallon. A iniciativa pretende, se aceita, questionar definições de direito autoral musical, nesse nosso tempo pós-pósmoderno, em que estes conceitos passam por profundos questionamentos e reformulações. 2. Painel Mosartes Depois de conviverem com a problemática da criação coletiva por 3 meses, os trabalhos gráficos culminaram com o Painel Mosartes, composto de 36 peças de papel A4 vergê de 180 gramas, dispostas sobre uma mesa, formando uma tela de cerca de 2,25m². A razão pela qual a tela foi subdividida em 36 peças foi puramente de ordem técnica, para facilitar o posterior escaneamento digital da obra. Essa tela foi deixada à disposição dos participantes, e outros eventuais usuários do local, com tintas guache, lápis, pincéis, etc., durante uma semana, 24 horas por dia. Mais de 100 pessoas deixaram suas marcas neste painel. Os participantes criaram, em grupo ou individualmente, sozinhos, sem controle. O resultado foi um complexo quebra-cabeça repleto de mensagens semióticas, uma verdadeira “impressão digital” da Oficina Escola de Artes. Interessante observar que, aqui, a forma era limitada apenas pelo tamanho do painel. Nenhuma instrução específica foi dada aos participantes a não ser: “Façam exatamente o que quiserem, pintar ou escrever, com total liberdade”. Em princípio, nada impedia qualquer participante de desfigurar o trabalho alheio, a não ser seu próprio senso estético. Considero essa experiência uma metáfora poderosa, poética, da anarquia como sistema de convivência social e política, dos limites do indivíduo quando confrontados ao coletivo, do conteúdo quando confrontado com a forma. O resultado (enviado anexo), além de impresso nas páginas do livro, participará eventualmente da exposição final. Além destas duas obras capitais, geramos os seguintes produtos: · Desenhos A) abstratos em preto-e-branco, aqui chamados de “Arte Telefônica” porque inspirados nos desenhos distraídos, frequentemente encontrados em papéis avulsos, nas cabeceiras e mesinhas de telefones. B) abstratos ou figurativos coloridos, frequentemente acompanhados de textos individuais sobre algum tema. · Mandalas. Onde uma mesma forma geométrica era preenchida coletivamente ou individualmente. · Fotografias, entrevistas e gravações feitas pelos participantes. Que documentaram o meio-ambiente físico e humano da comunidade. · Depoimentos dos participantes, sobre vários temas, escritos, gravados em áudio ou vídeo. · Vídeos com micro peças teatrais, compostas, dirigidas e interpretadas pelos participantes. Em andamento: · www.mosartes.org, a ser coordenado por Diego Sayheb, maneira de disponibilizar o método e seus resultados, assim como dar continuidade ao trabalho iniciado pelo Prêmio Interações Estéticas e servir de ponto de encontro e reflexões para os participantes, por tempo indefinido (*). · O livro/cd, que norteou os trabalhos será disponibilizado em breve pelo site do projeto em forma de PDF, Mp3 e, posteriormente, na sua forma física, impresso e distribuído pela mídia cultural (*). · O vídeo de arte do projeto Mosartes, que documenta e ilustra a experiência de criação coletiva (*)
O QUE EU APRENDI COM O PROJETO (um depoimento do artista em residência): LINGUAGEM. O trabalho criativo coletivo se depara de modo mais categórico com a semântica da forma e conteúdo, pondo a obra, mais imediatamente, numa perspectiva semiótica: Os signos para traduzir os pensamentos em linguagem oral e escrita são, de certo modo, uma criação artística coletiva. Como urbanóides contemporâneos, estamos condenados a uma estado caótico de comunicação permanente, independente da nossa vontade, à revelia. O espaço de criação coletiva demonstrou-se então um excelente tubo de ensaio para calibrar a mensagem (temática) dentro de uma linguagem forjada no campo de ação. Para mim, esse reencontro com as sutilezas e rituais de expressão das novas gerações brasileiras foi de valor inestimável para os meus próprios processos criativos. ESTRUTURA. Muitas vezes, o jovem cria por impetu creatus, intuitivamente, impulsivamente, sem barreiras de auto-censura, uma prática que eu suspeito ter sido comum a certos tipos de criadores como Picasso, Beuys, Pollock, Gaudi, Garcia Marquez, Villa Lobos, entre outros. Neste projeto, foi muito útil para mim ver que, mesmo quando a obra não surge de um plano, de uma estrutura pré-estabelecida ou tema, ainda assim a estrutura pode se revelar a posteriori através da análise. Foi assim com a frase de um participante de 12 anos, após uma discussão sobre ecologia: ”As pessoas vivem em montanhas cercadas por uma só flor”. Decifrando essa frase enigmática à minha maneira descobri uma poderosa metáfora: Vivemos, seres humanos, em montanhas. Somos a espécie que pode ver mais longe. Do alto deste Olímpio acadêmico temos a falsa perspectiva de um consenso que não existe, e não conseguimos enxergar nem a base da montanha, o povo, nem a flor que nos nutre, (Gaia), o bioma-mater, o imenso sistema ecológico do planeta Terra. Muitos colocarão que jamais passou pela cabeça do menino de 12 anos a minha interpretação. Eu responderia que isso perde importância num processo de criação coletiva. A frase não foi criada por acaso, mas foi o resultado de um processo instigante que se iniciou quando eu e o menino entramos no projeto.
PARECERES DE ALGUNS DOS PARTICIPANTES: MOSARTES - Mosaico de Artes e de Gentes - contribuições para uma reflexão Gero Band (professor de teatro e ator) “ Cultura é normalmente entendida como a arte produzida para galerias e teatros por gênios criativos em isolamento.Essa crença nos tem desviado e inferiorizado por séculos.Tem sido usada para nos convencer de que a cultura é irrelevante à nossa vida e para nos excluir da construção de idéias e interpretações. Resultou na idéia de que não possuímos técnicas culturais.Mas, sobretudo, essa mentira tem sido usada para nos desencorajar de participar da construção da nossa própria cultura e identidade.” Dan Baron “Theatre of Self-Determination” “... com essa definição, podemos entender a subjetividade como a história cultural e a matriz social dinâmica de nossa motivação. Dan Baron “ Alfabetização Cultural a luta íntima por uma nova humanidade” Sendo um projeto de criação coletiva em que todas as decisões são tomadas coletivamente, segundo o princípio da democracia direta, MOSARTES busca justamente, através de um mosaico de artes e gentes, transcender a subjetividade e encorajar os participantes à construção de sua própria cultura e identidade. Trata-se, além do mais, de um exercício elementar em cidadania, um exercício para que cada participante adquira consciência de seus direitos tornando-se protagonista de sua própria existência. Foi isto que pudemos testemunhar quando, p.ex.,um grupo de jovens e artistas se debruçaram juntos em torno de uma mesa, cada um expressando o que mente e coração lhe ditava contribuindo individualmente para a elaboração de um painel coletivo caótico e pujante desta maneira ilustrando o que Ernst Fischer nos diz:- “ A arte é um meio individual de retorno ao coletivo.” * Para termos um mundo habitado só por cidadãos, é preciso educação é preciso a expansão da consciência de cidadania, e a educação através da arte é um dos instrumentos para o despertar desta consciência. No livro “A Necessidade da Arte” de Ernst Fischer, Antonio Callado , no prefácio, nos diz que “ à medida que a vida do homem se torna mais complexa e mecanizada, mais dividida em interesses e classes, mais 'independente' da vida dos outros homens e portanto esquecida do espírito coletivo que completa uns homens nos outros, a função da arte é refundir esse homem, torná-lo de novo são e incitá-lo à permanente escalada de si mesmo.” Em sua estratégia democrática, o que MOSARTES se propõe é justamente relembrar o espírito coletivo, que completa uns nos outros, dando a cada participante um vislumbre do ser humano total que ele quer ser, desta forma unindo na arte “o seu “EU” limitado com uma existência humana coletiva” * tornando, assim, social, a sua individualidade. Os periódicos encontros constituíram em verdade, em momentos para nos encorajar a participar da construção de nossa cultura e identidade.Apontaram, além do mais, para outra verdade:- “mesmo o mais subjetivo dos artistas trabalha em favor da sociedade” * * Ernst Fischer A Necessidade da Arte, Zahar Editores, 5ª edição, Rio de Janeiro, 1959 O que eu achei mais bonito no projeto foi o fato de participantes terem tido a oportunidade de criar obras inusitadas, iniciando-se na utilização de mídias que, talvez, não fosse pelo fato desta participação, neste projeto, jamais teria acontecido. Acho mesmo que o inusitado desta experiência coletiva pode, muito bem, afetar a vida do indivíduo, levar seus destinos para rumos inesperados, quem sabe até mesmo despertar chamas existenciais, causar “clics”. Foi primordial a participação mediadora do coordenador Guilherme Mallon, para que o projeto tivesse uma qualidade estética superior, uma direção. Raimundo Peres artista plástico, aquarelista, pintor. Muito positivo o resultado do Mosartes na nossa escola, a única coisa lamentável foi eu não ter tido tempo de participar. O mais interessante foi que o projeto apareceu na nossa escola sem uma forma definida, foi “esculpido” pelos participantes, de maneira democrática. Mário Bastos Jorge Diretor administrativo da Oficina Escola de Artes Ouvi falar antes que arte é cultura ... agora eu sei. Adam Amorim 14 anos
cultura de pontos em artísticas residências ... estéticas interações prêmio o integra iniciativa esta